O que fazer com as pessoas que nos perturbam na meditação?

Primeiro há que investigar porque é as pessoas nos perturbam. Talvez seja surpreendente descobrir que se as pessoas nos perturbam é em grande medida porque lhes permitimos que nos perturbem.

Eu é que permito que aquilo que me dizem, os comentários que me fazem, as experiências e situações que vivo me perturbem. Por consequência a liberdade e paz interna que posso gozar é apenas aquela que as pessoas me permitem.

Podemos, no entanto, alterar este estado de coisas, se invertermos a forma como lidamos com as pessoas. Se eu der a cada pessoa a liberdade para ser o que ela é, e pensar o que pensa, eu mesmo serei livre. Eu vejo-me como livre, porque dou a cada pessoa a liberdade para ter os seus próprios problemas e dificuldades. Até certo ponto nem sequer tenho de entrar em qualquer discussão. De facto, a minha liberdade existe na medida em que permito aos demais que tenham uma opinião sobre mim mesmo. Eu não preciso mudar a opinião das pessoas, mesmo que me pareça errada. Eu tenho de aceitar a liberdade que cada um tem para ser como é e a liberdade que me resta e a que tenho é a de que as suas opiniões não me perturbem.

Quando sento para meditar sozinho, nem sempre me vejo sozinho. Algumas pessoas vivem dentro e fora de mim. Algumas pessoas enraivecem-me. Algumas datas enraivecem-me, a data em que nasci ou casei, o mundo externo faz-me responder de forma além do meu controlo. E nesta confusão queremos meditar. No momento da meditação, eu lembro-me dessas pessoas e situações que me perturbaram ou as situações e pessoas em relação às quais existe um sentimento de culpa. Em relação a cada uma delas, trago-as à memória e permito-lhes ser como são.

Quando vemos a natureza, o céu estrelado, o bailado das aves, o florir das árvores, não existe insatisfação ou queixa interna. Eles não fazem nada para nos satisfazer, mas o ser essencial e satisfeito que somos aparece porque não queremos que nada do que vemos no momento seja diferente do que é. Aceitamos a natureza como ela é e por isso somos livres de insatisfação. Essa mesma liberdade pode existir por referência às pessoas em relação às quais somos mais intimamente ligados se as aceitamos como aceitamos a natureza.

Se mesmo assim me sinto impotente, e penso que outra pessoa precisa de mudar procuro agir nesse sentido. A acção, o karma, assume várias formas. Muitas vezes em circunstâncias semelhantes, a única solução para ajudarmos os outros ou a si mesmo é uma invocação nesse sentido, uma prece (uma vez que tem de ser a própria pessoa a querer mudar). A acção que a prece constitui pode ou não trazer o resultado pretendido, mas certamente liberta a pessoa da sensação de impotência.

A meditação acontece quando a pessoa essencial que somos é encontrada. E para que ela seja encontrada é preciso que a pessoa esteja só. Só, não apenas externamente, mas só na sua mente.
Kṛṣṇa ensina na Bhagavad Gītā (V- 27), bāhyān sparśān bahiḥ kṛtvā, manter os objectos externos, externos.

A maior parte do tempo trazemos connosco uma autêntica procissão de família, amigos e inimigos. No momento da meditação é preciso abandonar a procissão. Isso acontece quando se deixa cair o desejo de querer que as pessoas mudem. Temos de entender que as impressões que as pessoas deixam na nossa mente são baseadas na nossa percepção. Assim, em relação a cada uma das pessoas que estão na nossa mente, reconhecemos que é assim que cada uma delas é na nossa percepção. E sabemos que a nossa percepção pode estar correcta ou errada. É, apenas, a nossa percepção. Aceitamos essa realidade e então somos objectivos. Da mesma forma que somos objectivos em relação ao nosso corpo e respiração, somo-lo em relação à nossa mente. Tão logo esta objectividade é adquirida, alcançamos a pessoa essencial que se relaciona com īśvara. De outra forma, a frustração mantêm-nos colados ao papel correspondente. O vedānta torna-se real quando somos capazes de acomodar os outros.

 

Fonte www.dharmabindu.com