Coleção de livros de artista em Serralves

A coleção de livros de artista do Museu de Serralves, orientada por Guy Schraenen até à sua morte em 2018, é uma das mais importantes da Europa. Nela estão representadas todo o tipo de tendências deste género artístico que surgiu em finais dos anos 1950, quando os artistas inventaram o conceito de "livro de artista”, uma nova e revolucionária forma de lidar com o espaço do livro para a difusão de ideias e obras.

Por ocasião do 30º aniversário da Fundação de Serralves, a exposição em três capítulos Game, Set, Match apresentará as mais destacadas publicações de artistas visuais em todas as áreas, analisando os três campos principais de investigação dentro do universo dos livros de artista: se no primeiro capítulo da exposição estará em foco a noção tautológica do livro de artista enquanto livro, o segundo capítulo irá refletir sobre o livro de artista como obra de arte de direito próprio, equivalente a uma pintura ou escultura; o terceiro capítulo centrar-se-á em trabalhos que se situam na interface entre livro e objeto. Em conjunto, os trabalhos apresentados são exemplos de como os artistas metamorfoseiam os aspetos correntes do livro: não destruindo as suas ideias-chave, mas antes dando-lhe nova vida e perspetivas.

CAPÍTULO I O LIVRO COMO LIVRO

O livro é desde sempre uma presença constante na obra de arte, quer de forma direta, quer indiretamente. Conhecemos inúmeras pinturas em que o livro tem um papel de destaque. Escritores e filósofos também dedicaram a sua atenção à criação literária, ao papel do escritor, ao papel do leitor e ao ato de ler.

Os livros selecionados para este capítulo da exposição questionam a própria essência do livro. Estes livros não contêm imagens ou textos para contar uma história. Não representam nada a não ser a si próprios. Nesta medida podem ser considerados trabalhos tautológicos.

Desenvolvendo-se página a página, tornam-se puras reflexões conceptuais ou formais da noção intelectual e formal de livro, e neste sentido são exemplos pertinentes para ilustrar de modo lapidar a função e a natureza construída de um livro. São livros no sentido mais estrito do termo, que oferecem novas formas de ver e percecionar um livro.

CAPÍTULO II O LIVRO COMO OBRA DE ARTE

A obra-chave deste segundo capítulo da exposição é Un coup de dés jamais n’abolira le hasard (1897), de Stéphane Mallarmé, em que o autor liberta o texto da sua disposição tradicional na página. Pela primeira vez na história, já não há página da esquerda e página da direita, mas antes uma cascata de palavras sem esquema definido, integrando efeitos visuais e espaços entre as palavras, chamando a atenção do leitor e consciencializando-o da totalidade do espaço em cada página. Foi necessário passarem sessenta anos para que os artistas se apoderassem do espaço do livro para o explorar de uma variedade de formas, deixando de o considerar um contentor de informação e criando obras de arte com a sua própria relevância.

Uma seleção de “livros-ícone” dos anos 1960 e 1970 é apresentada neste capítulo. Geralmente são livros de formato médio, aparência tradicional, e tanto os materiais como as técnicas de impressão nada têm de extraordinário. Muito distantes do objeto bibliófilo de luxo, o seu valor reside no seu conceito, estabelecido de forma inequívoca e que não necessita de comentários didáticos. Ou, como declarou Ulises Carrión: “Para o entender, não necessitas de passar cinco anos numa universidade.” Mas a ideia de conceber livros não sumptuosos, de custos modestos, não foi apenas uma decisão estética e conceptual: por trás dela está também a intenção política de proporcionar a um público tão vasto quanto possível a oportunidade de se confrontar com as tendências e os estilos artísticos do seu tempo. Para além do mais, viabilizou oportunidades descomplicadas de intercâmbio destas obras de arte além-fronteiras, assim como além do universo da arte, com as suas definições e sistema de mercado. Surge uma rede independente, desvinculada dos espaços tradicionalmente atribuídos aos artistas, que assim criam os seus espaços de exposição entre a capa e a contracapa de um livro que pode ser levado para toda a parte e visitado sempre e onde quer que se deseje.

CAPÍTULO III O LIVRO COMO OBJETO

Os livros escolhidos para este capítulo escapam ao conceito e ao material convencional do livro. Em vez disso, a sua aparência, conteúdo ou finalidade habituais são usados como modelo; de forma similar a quando, por exemplo, um corpo serve de modelo para uma pintura ou escultura. Por vezes o modelo é discernível, outras, de tal modo subvertido, é quase irreconhecível. As possibilidades de mutação de um livro vão desde a simples página a uma construção complexa, passando por formas ou materiais inabituais. Quer consistam numa publicação cortada às tiras, sejam constituídos por uma página apenas ou já não sejam legíveis, estes objetos lidam com e refletem o livro convencional de várias formas e, nesse sentido, questionam as expectativas do espectador sobre como devem os livros ser experienciados.

Game, Set, Match: Três conceitos do livro de artista é organizada pela Fundação de Serralves – Museu de Arte Contemporânea, Porto, e tem curadoria de Maike Aden segundo conceitos de Guy Schraenen.