Como o cérebro reage ao perigo

Uma equipa de investigadores do Centro Champalimaud descobriu que há um par de neurónios que está envolvido na decisão da melhor estratégia a adotar perante uma ameaça.

Uma investigação de uma equipa de cientistas do Centro Champalimaud, em Lisboa, publicada na “Nature Communications”, revelou que a escolha entre fugir ou paralisar pode depender da nossa posição no momento em que o perigo aparece. No estudo realizado com moscas-da-fruta, com o objetivo de compreender como é que o cérebro “escolhe” a melhor resposta defensiva a uma ameaça e também como assegura que ela é executada, sabendo desde logo que há, simplificando, três principais estratégias defensivas perante o medo: lutar, fugir ou paralisar. Neste estudo, os investigadores centraram-se na fuga e, especialmente, na opção pela paralisação.

Os animais foram desta vez colocados numa arena onde estavam impedidos de voar, tendo sido, seguidamente, ameaçados durante cinco minutos através de um estímulo (uma sombra que simula um grande objeto numa rota de colisão) que desencadeia respostas defensivas e observados.

Expostas à ameaça, constatou-se algo de totalmente novo: as moscas paralisavam. De facto, tal como acontece com os mamíferos, elas permaneciam perfeitamente imóveis minutos a fio, por vezes em posições muito desconfortáveis, tal como meio de cócoras ou com uma pata ou duas suspensas no ar”, explica Marta Moita no comunicado sobre o estudo. Mas isso não acontecia com todas as moscas. Algumas fugiam a correr. “Tal como os humanos, as moscas estavam a escolher entre estratégias alternativas”,

Depois, olhando de forma mais profunda para os dados perceberam que existia uma diferença óbvia entre as moscas que paralisavam e as moscas que corriam. Os animais que eram ameaçados quando estavam numa marcha lenta paralisavam. Já os que eram confrontados com uma ameaça quando se movimentavam em “passo rápido” optavam, depois de uma pequeníssima pausa de milissegundos, por fugir a correr. A velocidade era uma variável importante.

Por outro lado, os cientistas perceberam que quando a opção era fugir a correr existia antes uma pausa de milissegundos. Ou seja, a opção pela corrida em vez da paralisação pode ter a ver com o facto de assumir que foi detetada pela ameaça por se estar a movimentar depressa quando surge o perigo. “Se vai a andar devagar pode tentar disfarçar e paralisar para não sobressair no ambiente”, adianta.

“Quando começámos a trabalhar nestas questões, a maioria das pessoas pensava que as moscas iriam fugir sistematicamente. Quisemos ver se isto era realmente verdade. Apesar de ser um inseto, a mosca-da-fruta é um modelo animal extraordinário, que tem ajudado a esclarecer muitos problemas difíceis da biologia. Portanto, quando decidimos estudar as bases neurais dos comportamentos defensivos, perguntámo-nos o que aconteceria se expuséssemos as moscas a uma ameaça numa situação em que simplesmente não podiam fugir a voar”, refere Marta Moita.

O trabalho com moscas-da-fruta garante o acesso a conjuntos de neurónios muito bem definidos. Neste caso, os cientistas tinham acesso a neurónios que ligam o cérebro ao equivalente à espinal medula.

Quando estes neurónios em particular foram “desativados”, observou-se que a mosca continua a responder à ameaça, mas só corria, nunca paralisava. E quando se forçou a ativação destes neurónios sem a presença de qualquer ameaça, a mosca paralisava.

Marta Moita acrescenta: “É exatamente o que procurávamos: como o cérebro decide entre estratégias concorrentes. Mais ainda, estes neurónios são do tipo que envia comandos motores do cérebro para a estrutura equivalente à espinal medula da mosca. O que significa que eles poderão estar envolvidos não apenas na escolha, mas também na execução do comportamento”.

Está aberta uma porta para futuras investigações que procurem identificar os principais mecanismos e “regras do jogo” que estão por trás da forma como os animais, todos os animais, respondem ao perigo.