Mala voadora aterra em Guimarães

O teatro é protagonista no final do mês com díptico de peças da mala voadora a subirem ao palco do Grande Auditório do CCVF a 27 e 29 de setembro. Mala voadora viaja de “Moçambique” para a “Amazónia” com escala obrigatória em Guimarães.

Enquanto se assinala o 13º aniversário do Centro Cultural Vila Flor (CCVF), em Guimarães, o teatro é rei e senhor.

Em cena, um díptico de peças de uma das mais afirmadas companhias do país: “Moçambique” e “Amazónia”, da mala voadora, sobem ao palco do Grande Auditório a 27 e 29 de setembro, respetivamente. Assim, esta quinta-feira (27 de setembro) e sábado (29 de setembro), a celebração das artes no CCVF acontece na forma de teatro com a companhia mala voadora a viajar até ao Grande Auditório para apresentar o díptico de peças “Moçambique” e “Amazónia”, ambas às 21h30. Com Jorge Andrade ao leme, a viagem começa a 27 de setembro com “Moçambique”, obra premiada pela Sociedade Portuguesa de Autores em 2017 como Melhor Espetáculo.

Seis atores são contratados para fazer de conta que são moçambicanos, discutem a História à medida que tentam montar a narrativa de um empreendimento, cantam spots de publicidade de concentrado de tomate em línguas de países capitalistas e em línguas de países comunistas, e dançam para representar algumas partes da História, até ficarem exaustos – assim se conta a história de “Moçambique”.

Jorge Andrade, fundador da companhia mala voadora e encenador da peça, explica que “Moçambique” faz parte da sua história de vida e avança como uma obra ficcional em que se inventa um país em cima da sua própria História. Assim, o encenador cria aqui um terreno especulativo para o que poderia ter sido e não foi, evocando um lugar que nos faz repensar a nossa realidade. A peça, construída em cima de uma situação real – que podia ter alterado profundamente o seu trajeto de vida quando, em 1974, esteve prestes a ser oferecido pela mãe à sua tia, que permaneceu neste país irmão após esta data –, é depois ficcionada de modo a elevar os seus contornos para questões histórico-políticas, propondo uma reflexão sobre diversas questões: “Aquilo que eu faço é contar numa hora e dez minutos a História, um país, o que não é fácil. E como se condensa muito, ela acaba quase por parecer fantástica e irreal. Mas é verídica, por mais absurdo que possa parecer”, explica o encenador e ator Jorge Andrade.

A companhia mala voadora cria, neste espetáculo, um registo ousado que muitas vezes roça a comédia e a sátira para falar de um assunto que ainda hoje nos é delicado, o colonialismo português e as suas repercussões na sociedade, na economia, na cultura e até do ponto de vista humanitário.

Para encerrar esta celebração de mês inteiro, seguimos para a “Amazónia” no dia 29. Nesta que é a sequela de “Moçambique” – que terminou em catástrofe –, o mesmo grupo de personagens resolve aventurar-se num outro paraíso – a selva amazónica – para gravar uma telenovela ecológica: “o planeta precisa, as pessoas interessam-se, é ético, é urgente, vai ter audiências”; assim o justificam. Jorge Andrade, igualmente responsável pela escrita e encenação desta nova incursão, leva-nos a prosseguir viagem para um destino longínquo. Os artistas desbravam novos caminhos e procuram financiamento e as personagens da novela também, porque também elas querem empreender: querem civilizar a Amazónia, seguir o caminho universal da civilização.

A concretização deste espetáculo assenta na poupança de matéria-prima: o cenário é emprestado, o desenho de luz é reciclado, as músicas são de outros espetáculos da mala voadora, e as cenas são copiadas de espetáculos de outras pessoas – a combinar com a ecologia do tema.

Com ou sem boas intenções, um bom exemplo fica sempre bem. No fim do espetáculo, a mala voadora aterra junto do público para um momento de debate e partilha, numa conversa informal.

Entre os dias 24 e 26 de setembro, aproveitando a presença da mala voadora em Guimarães, o CCVF dá, ainda, a oportunidade de conhecer de perto os processos de trabalho dos seus diretores, o ator e encenador Jorge Andrade e o cenógrafo José Capela, através de uma Oficina de Criação, dirigida a criadores e encenadores.