O perigo do efeito “caixa-de-ressonância”

Como é possível, em pleno séc. XXI, defender certas ideias, conceitos e opiniões? Como é possível, por exemplo, existirem comunidades defensoras da teoria de que a Terra é plana, uma conceção há muito destruída pela ciência?

Um novo estudo da Universidade de Califórnia – Berkeley, nos Estados Unidos da América, publicado na revista científica “Open Mind”, mostra que as crenças das pessoas são reforçadas ou enfraquecidas de acordo com as reações positivas ou negativas que recebem – e não tanto pela lógica ou dados científicos. Se inseridas num grupo que reforça/partilha a sua convicção, as pessoas veem as suas opiniões legitimadas e desvalorizam (ou nem sequer verificam) os factos que as contradizem.

Com o objetivo de averiguar como lidam as pessoas com informação que desafia a sua mundividência, os investigadores descobriram que alguns hábitos de aprendizagem limitam o horizonte intelectual dos seres humanos. Por exemplo, “se alguém pensar que sabe muito sobre um assunto – apesar de não saber – tem uma menor probabilidade de ter curiosidade para explorar o tema e nem sequer se apercebe de quão pouco sabe”. Esta dinâmica cognitiva também se reflete no comportamento dos utilizadores de redes sociais ou nos espectadores de meios de comunicação com alinhamento político, por exemplo.

Ao analisar o que influencia as pessoas ao longo do processo de aprendizagem, o estudo revelou que a confiança dos participantes se baseia nos resultados da sua performance, em vez de nos resultados cumulativos de aprendizagem.

Aos 500 adultos participantes do estudo pediu-se que observassem diferentes formas coloridas no ecrã dos seus computadores e que identificassem as figuras com formato “daxxy” – uma terminologia inventada pelos cientistas só para o estudo, para garantirem que os participantes não sabiam do que se estava a falar, sendo assim obrigados a identificar as figuras à sorte.

À medida que faziam as suas escolhas eram informados sobre se tinham acertado ou errado. Sempre que lhes perguntavam se estavam seguros das suas opções, verificou-se que a sua autoconfiança era maior quando tinham acertado as quatro ou cinco respostas anteriores, ou seja, a sua opinião variava consoante lhes diziam que tinham acertado ou errado – e não de acordo com a informação reunida ao longo do processo que facilitava a identificação de uma figura “daxxy”.

“O mais interessante foi que podiam errar dezanove vezes seguidas, mas, a seguir, se acertassem cinco vezes, sentiam-se muito confiantes”, observa o investigador Louis Marti. “Não é que não estivessem a prestar atenção, estavam a aprender o que era um “daxxy”, mas não estavam a usar tudo o que aprendiam para decidirem corretamente”.

Ou seja, as decisões dos participantes deveriam basear-se na informação e no feedback recebido, mas focavam-se sobremaneira nas reações (feedback) recebidas, distanciando-se cada vez mais dos factos.

Fake news?