Slow School, para uma educação com vagar

“O tempo pode ser medido com as batidas de um relógio ou pode ser medido com as batidas do coração”. Ruben Alves - Pedagogo

Crescer sem pressa, com tranquilidade, com tempo e no seu ritmo próprio são os pilares de uma educação slow. As crianças têm atualmente uma agenda preenchida que por vezes deixaria atordoado um executivo de topo. Têm, na verdade pouco tempo para serem apenas miúdos, para se divertirem e brincarem espontaneamente entre si aprendendo a ‘ser’ junto dos seus pares, livres de preocupações ou pressões de desempenho.

Para grande parte das crianças o tempo que têm fica demasiado repartido em horários estruturados e formais cheios de atividades e obrigações. No entanto, é preciso calma, muita calma e tempo precioso para processar a enorme quantidade de informações e estímulos que o mundo atual traz consigo. À medida que aumentam os estímulos externos, as corres garridas ou berrantes, os sons estridentes e constantes, as numerosas solicitações de entretenimento superficial, à medida que aumenta a dispersão, diminui a concentração na criança. Muitas vezes a rotina é feita de um dia-a-dia complicado, preenchido ao minuto com atividades desportivas, extracurriculares, sociais, trabalhos de casa, entre outras.

A restante família segue no mesmo cumprimento de onda, com jornadas também apertadas. Com isto, os momentos do presente são sacrificados em prol de um hipotético sucesso num futuro longínquo, o qual, na realidade, parece nunca chegar pois há sempre mais expectativas a cumprir, tarefas a realizar, projetos a conquistar e coleções de sucessos para mostrar. Não queremos com isto dizer que a concretização de objetivos, prazos e planos não seja positiva e até consideramos também que um pouco de competição saudável é fundamental no desenvolvimento de cada um, pois ajuda a motivar e ajuda à auto superação, porém, atualmente esses aspetos são tomados em demasia,  e tudo o que é em excesso é prejudicial e provoca carência em alguma outra dimensão, como no aprofundar dos relacionamentos e cumplicidades humanas, como no desenvolvimento do imaginário, da sensibilidade e da criatividade entre tantos outras dimensões da pessoa, desenvolvimentos esses tão importantes quando estamos em fases precoces da vida.

É por tudo isto que o movimento slow valoriza uma educação com vagar, sem pressas, com tempo e espaços para ter em conta as pequenas coisas simples do dia a dia e torna-las extraordinárias. A educação slow não é uma educação permissiva, nada disso, trata-se antes de permitir o tempo para a auto educação, a gestão pessoal do tempo sem apoio externo, promover que a criança não perca o aprender a estar simplesmente, o dar tempo para amadurecer as aprendizagens, o aprender a entreter-se por si próprio sem o constante apoio, orientação e atenção do adulto. No fundo trata-se de voltar a atenção para as coisas realmente importantes e essenciais da vida, as quais não se medem em percentagem numérica ou em pautas de exame.

É importante a criança saber parar o corpo e a mente, respirar profundamente, saber focar-se demoradamente em função da idade num jogo ou brincadeira. Noutros tempos, ainda não muito longínquos, tempos mais vagarosos, o ambiente e o ritmo de vida propiciavam mais facilmente que a interioridade brotasse. O silêncio e a quietude dos campos, o sino da aldeia, o suave som do mar ou do vento nos trigais, a simplicidade e maior escassez de brinquedos, as férias de Verão intermináveis, as histórias dos avós, a hora da sesta, as tardes de chuva sem televisão, faziam parte regular do dia-a-dia. Hoje, não existindo esses momentos de forma natural, é preciso que, embora sem forçar nostalgias, pois todas as épocas têm coisas boas, se vá em busca de espaços e tempos que possam promover essa interioridade e reflexão, tanto no seio da família como da comunidade.

Para além da educação no seio da família, também a escola, na maior parte dos casos, exerce o mesmo tipo de pressão. Inspirada pelo modelo cartesiano, privilegia em demasia a dimensão racional e cognitiva do ser, deixando de lado as outras vertentes, não dando o devido peso e medida aos níveis emocional, relacional, espiritual, manual, motor e artístico. Todos esses fatores foram, porém, abordados no relatório da UNESCO para a educação, que os considerou pilares fundamentais do desenvolvimento harmonioso e pleno do ser humano. Embora não exista ainda uma pedagogia slow própria e definida, várias pedagogias, pensadores e pedagogos podem servir de inspiração para uma abordagem mais lenta da educação. As Slow Schools, a existirem, encorajam a aprendizagem ao longo da vida e uma abordagem holística, global e integrada, visando a criança enquanto ser completo e total.

A educação slow privilegia as formas de interação e aprendizagem mais fundamentadas na cooperação do que na competição, e valorizam muito os contextos de aprendizagem não formal e informal, não excluindo, contudo, os contextos formais. A escola, para além da sala de aula, pode ser o mundo todo, a cozinha de uma casa, a vizinhança do bairro, os animais do bosque mais próximo, os fins-de-semana em família, etc. Existem atualmente já experiências concretas no sentido de experimentar um modelo de escola slow, o conceito foi inicialmente desenvolvido pelo já falecido professor Maurice Holt. O pedagogo brasileiro Ruben Alves foi também um defensor da escola lenta e em Inglaterra existe um projeto piloto que experimenta formas slow de aprender e ensinar. Salvaguardar as características individuais privilegiando a diferenciação pedagógica, onde os diferentes ritmos pessoais e as diversas formas de inteligência são incentivadas em detrimento de formas de ensino muito padronizadas, homogeneizadas e iguais para todos, constitui um dos pontos-chave neste modelo desacelerado de escola e educação.

A escola slow aproveita os espaços físicos, a sala de aula, os materiais pedagógicos e lúdicos para ajudar a sua pedagogia, pois os valores estéticos devem refletir os valores pedagógicos. Neste caso entrar numa escola slow deveria transmitir a sensação de entrar numa casa acolhedora. A criação de vínculos afetivos estáveis e fortes constitui outro dos objetivos neste modelo, onde se valoriza a segurança e a inteligência emocional como forma de um desenvolvimento saudável e forte, preparado para enfrentar o mundo de grandes e rápidas mudanças, tão constante hoje. É preciso tempo para estar junto, aprofundar relações e a ideia de 15 minutos de qualidade não chega, pois aprender a ser gente… faz-se lentamente!

Em Portugal, pistas para uma possível pedagogia slow foram também já lançadas num capítulo inteiramente dedicado à educação no ‘Livro Slow, as Coisas Boas Levam Tempo’ editado pela ‘Oficina do Livro’ em 2017. No seguimento do livro a Associação Slow Movement Portugal, prepara-se para passar à prática e ensaiar um modelo de ‘Educação sem Pressa’, numa escolinha de aldeia, no campo mas bem perto de Lisboa. Trata-se de uma daquelas escolas ‘primárias’ antigas, agora desativadas e que começam a ganhar uma segunda vida em projetos sociais, culturais ou educativos. É o caso deste projeto ‘Slow School’, que para além da utilização do espaço da escolinha, pretende colocar o a própria aldeia e paisagem natural envolvente ao serviço da comunidade constituindo com isso uma verdadeira aldeia pedagógica na qual todos participam.

Dado ser por natureza uma filosofia que pretende fomentar a partilha e a parceria, a slow school, não fica confinada às paredes de um espaço e abre-se à comunidade envolvente e também aos espaços de outros parceiros do projeto.

Uma escolinha slow abarca um tempo privilegiado, um tempo para aprender a fazer as coisas só pelo prazer que dão ou pelo enriquecimento que provocam sem estar preso a resultados e sucessos quantificáveis.

Algumas dicas para criar ‘slow kids’

– Dar um espaço diário para a criança brincar livremente sem a intervenção do adulto.

– Estabelecer limites e saber dizer não, nomeadamente no que respeita ao uso abusivo das tecnologias, utilizando-as de uma forma consciente.

– Permitir momentos frequentes de sossego, silêncio, solidão saudável e ausência de estímulos externos na vida de uma criança, permitindo esvaziar a mente.

– Permitir que a criança “se aborreça”, porque é do tédio que surge a criatividade, com a necessidade de preencher esse mesmo tédio.

– Dar estímulos é benéfico, mas só se for com conta, peso e medida, sem esquecer também os períodos de pausa, de relaxamento e a oportunidade de fazer atividades que promovam o bem-estar da mente e do corpo, como o ioga ou a meditação.

– Desacelerar a vida e a rotina dos adultos é, desde logo também, o primeiro passo para desacelerar a vida  das crianças.