“Toda a dor pode ser suportada se sobre ela puder ser contada uma história”

Quem o disse foi Hannah Arendt (1906-1975), uma teórica política alemã, conhecida por ter sido uma das maiores pensadoras do século XX. E basta refletirmos um pouquinho para percebermos a riqueza e a pluralidade desta afirmação. Uma afirmação simples, mas muito interessante que nos faz pensar.

O primeiro pensamento que me surge quando leio esta frase é o meu avô. Aliás, mais do que ele, são as suas histórias. Em todas elas, é incrível a emoção e a vivacidade sempre presentes, percebe-se que por detrás existe a tal dor, referida por Hannah Arendt, mas no presente essa dor já foi ultrapassada e dela resultam passagens magníficas, dignas de um bom livro. Por exemplo, quando os emigrantes portugueses se viram obrigados a abandonar o país em busca de melhores condições de vida que lhes permitissem suportar as exigências de uma família, muitas das vezes correndo grandes riscos devido ao caráter clandestino da emigração, chegando por vezes a ser apanhados pela PIDE e forçados a voltar para trás enfrentando castigos severos.

Outra das situações de dor foi o Ultramar, a guerra colonial, que causou em muitos dos soldados sobreviventes um trauma do qual ainda estão nos dias de hoje a tentar recuperar. Obrigados a cumprir o serviço militar e enviados para o campo de batalha ainda em tenra idade, viam-se forçados a deixar para trás a família, provocando nela uma dor e um vazio próprio de quem sabia que tal poderia significar uma despedida até à eternidade. Chegados ao território inimigo, a piedade e a misericórdia eram apenas duas das palavras que tinham que ficar de fora dos seus dicionários. Em caso de necessidade, eram obrigados a premir o gatilho da arma que carregavam para aniquilar o inimigo, sob pena de que se não o fizessem, fossem eles as vítimas.

Hoje, os que sobreviveram têm uma, duas ou até mais mãos cheias de histórias para contar aos que por cá ficaram aguardando pelo seu regresso sempre incerto. Histórias essas que são, certamente, bastante saborosas por tudo aquilo que escondem dentro de si e por toda a dor que encerram. E é por tudo isto que “toda a dor pode ser suportada se sobre ela puder ser contada uma história.”